APARIÇÃO DE N. S. de FÁTIMA
O Anjo da Paz
Entre junho e
agosto de 1916, Lúcia e seus priminhos Francisco e Jacinta
conduziam suas ovelhinhas como de costume,
De repente levantou-se um vento, um vento estranho; olharam espantados
as árvores agitadas e deram com um clarão, vindo do nascente, que se
aproximava cada vez mais forte, cada vez mais esplendoroso.
- Não temais. Sou o Anjo da Paz. Orai
comigo!»
Ajoelhou em terra e
curvou a fronte até o chão. Os pastorinhos imitaram-no e repetiram as
suas palavras:
- «Meu Deus, eu creio, adoro, espero e
Vos amo. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não
esperam e não Vos amam.»
Mais duas vezes o
Anjo pronunciou aquela oração e depois recomendou-lhes:
- «Orai assim. Os corações de Jesus e
Maria estão atentos às vossas súplicas.»
Então desapareceu.
A oração gravou-se de tal forma na mente de Lúcia e Jacinta
(Francisco não chegara a ouvi-la) que nunca mais a esqueceram e, a
partir desse instante, a repetiam muitas vezes por longo tempo, até caírem
de cansaço.
Sacrifícios e orações pelos pecadores
A segunda aparição deu-se semanas depois. As
crianças foram passar em casa as horas mais quentes do dia e brincavam
junto do poço, quando, subitamente, viram junto deles a mesma figura.
«Que
fazeis? Orai, orai muito. Os corações santíssimos de Jesus e Maria têm
sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente, ao Altíssimo,
orações e sacrifícios.»
-
Como
nos havemos de sacrificar?,
perguntou Lúcia.
«De
tudo o que puderdes, oferecei a Deus sacrifício em ato de reparação
pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos
pecadores. Atraí assim, sobre a vossa pátria, a paz. Eu sou o Anjo da
sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo, aceitai e suportai com
submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar.»
E desapareceu.
Jacinta dizia ao irmão:
- Tem cuidado, nestas coisas fala-se pouco. -
E continuava -
Quando falo no Anjo não sei o que me acontece; não posso falar, nem
brincar, nem cantar... Não tenho forças para nada...
- Nem eu também -
dizia Francisco. -
Mas que importa?... O Anjo é mais que tudo isso: pensemos nele!
Reparações ao Santíssimo
Sacramento
Passaram-se três
meses. Estavam os pastorinhos novamente na gruta do Cabeço e, depois de
rezarem o terço, como de costume, puseram-se a recitar juntos a oração.
Acabavam de
repeti-la mais uma vez quando subitamente a mesma luz cristalina brilhou
novamente sobre o vale e o Anjo tornou a aparecer-lhes: belo,
resplandecente, deslumbrante, suspenso no ar. Trazia numa mão um Cálice
e, sobre ele, com a outra mão, segurava uma Hóstia. Deixou-os
suspensos no ar, prostrou-se por terra e disse:
«Santíssima
Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos
o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo,
presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes,
sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos
infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de
Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.»
Repetiu três vezes
essa oração com as crianças. Depois levantou-se, tomou novamente o Cálice
e a Hóstia e deu a Comunhão a Lúcia, dando o Cálice a beber aos dois
irmãozinhos, dizendo:
«Tomai
e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo horrivelmente ultrajado pelos
homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus.»
De novo em adoração,
repetiu a súplica à Santíssima Trindade. E desvaneceu-se na luz do
sol.
A sensação da
presença de Deus nessa ocasião foi muitíssimo mais intensa e
deixou-os tão exaustos que, dias depois, Francisco comentava:
- Gosto muito de ver o Anjo; mas o pior é que, depois, não somos
capazes de nada. Eu nem andar podia!
Isso tudo aconteceu quando Lúcia tinha nove anos, Francisco, oito, e
Jacinta, seis. Nenhuma das crianças contou sobre a aparição do Anjo,
nem em casa nem em parte alguma. Somente na Segunda
Memória, escrita em 1937, é que Lúcia se refere
incidentalmente ao Anjo da Paz, relato inesperado pelos 21 anos de
ocultamento, e que causou grande surpresa.
A
Senhora mais brilhante que o sol
Um dos lugares
prediletos das crianças pastoras ficava nas terras do pai de Lúcia.
Era um pequeno vale, chamado Cova da Iria. Os pastorinhos brincavam e
cantavam cantigas daquele tempo, como esta:
Mas depois das
experiências com o Anjo, eles já não cantavam com o mesmo entusiasmo
de antes. Já não eram os mesmos. Além disso, os problemas de saúde
da mãe de Lúcia, e a guerra que se desenrolava na Europa,
refletindo-se na vida da pequena vila, trouxe para os pequenos muitos
sofrimentos; eles, porém, lembravam-se das palavras do Anjo e tudo
ofereciam:
- Meu Deus, ofereço-Vos todos estes sacrifícios e sofrimentos em
reparação pelos pecadores e pela sua conversão.
As crianças tinham agora consciência de que existia um mundo angustiado, às voltas com o incompreensível mistério do sofrimento.

1ª Aparição
No dia 13 de maio de 1917, um domingo,
os pais de Jacinta e Francisco planejaram ir a uma feira próxima para
fazer compras, e mandaram as crianças à missa
Estavam entretidos
nesse trabalho, quando foram surpreendidos por um raio de luz, que lhes
pareceu um relâmpago. Correram para se abrigar, quando um segundo relâmpago
os fez afastarem-se da árvore, e então pararam pasmados. Bem diante
deles, na copa de uma azinheira de cerca de um metro de altura, viram
uma esfera de luz e, no centro, uma Senhora, "vestida toda de
branco, mais brilhante que o sol, espargindo luz, mais clara e intensa
que um copo de cristal, cheio d'água cristalina, atravessado pelos
raios do sol mais ardente", nas palavras de Lúcia. Seu rosto era
de uma beleza indescritível. Tinha as mãos juntas, em atitude de quem
reza, apoiadas no peito; da mão direita pendia um terço. As vestes
pareciam ser feitas unicamente de luz. A túnica era branca, como branco
era o manto, orlado de uma luz ainda mais intensa a reluzir como outro,
que lhe cobria a cabeça e lhe descia até aos pés. Não se lhe viam o
cabelo nem as orelhas. Era impossível fixar os olhos em seu rosto, pois
sua luz os cegava.
Fascinadas,
aproximaram-se tanto que se colocaram dentro do círculo de luz que a
acompanhava.
«Não
tenhais medo. Eu não vos faço mal»
As crianças não
sentiam medo, o que as assustara fora somente o "relâmpago" e
o receio da trovoada. Uma grande alegria e paz inundavam suas alminhas.
Refeita do susto, Lúcia perguntou:
-
De
onde é vossemecê?
«Sou
do Céu!»
-
E
que é que vossemecê me quer?
«Vim
para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia
-
E
eu também vou para o Céu?
«Sim,
vais»
-
Que
felicidade! Ir para o Céu!... E a Jacinta?
«Também.»
-
E
o Francisco?
«Também
irá, mas terá de rezar muitos terços.»
O olhar da formosa
Senhora parecia agora fixar magoado o pastorinho que nada ouvia e não
via distintamente a Celeste Visão.
- Ó Lúcia, eu não vejo nada... Arruma-lhe uma pedra, a ver se é
gente ou não!
"Que idéia!...
Atirar uma pedra a uma Senhora tão bonita e tão boa!", pensa Lúcia.
Mas perguntou:
- Então vossemecê é a Nossa Senhora do Céu e o Francisco não a pode
ver?
«Ele
que reze o terço e assim também me verá.»
Lúcia voltou-se para o primo:
- Olha, Francisco, a Senhora diz que rezes o terço e já a podes ver.
E
o pequeno, começando a rezar, logo goza da presença da Virgem Santíssima.
Entretanto, ele não podia esquecer as ovelhas que andavam na Cova e se
preocupava que não comessem a plantação que havia por perto.
- Deixa! - disse Lúcia. A Senhora diz que as ovelhas
não os comem.
- Qual não comem!... As ovelhas não
comerem os chícharos?
- Deixa, deixa, a Senhora lá sabe!
- Ó Lúcia -
manifestou-se Jacinta -
pergunta à Senhora se tem fome. Ainda ali temos broa e queijo... E
oferece-lhe um cordeirinho...
Mas Lúcia se
lembrou de duas moças, amigas de suas irmãos, que há pouco haviam
morrido.
- A Maria do Rosário do José das Neves está no Céu?
«Sim.»
-
E
a Amélia?
«Está
no Purgatório até o fim do mundo.»
- Que pena sentiu Lúcia!
Também a Senhora parecia triste ao perguntar:
«Quereis
oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser
mandar-vos em ato de reparação pelos pecados com que é ofendido, e de
súplica pela conversão dos pecadores?»
-
Sim,
queremos! - respondeu Lúcia, em nome
dos três.
«Ides,
pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.»
Ao dizer "a graça
de Deus", a Senhora abriu pela primeira vez as mãos e delas saíram
feixes de luz muito intensa, cujo reflexo envolveu as crianças,
penetrou-lhes no peito e atingiu-lhes o mais íntimo da alma. Conta Lúcia
que essa luz os fez "ver a nós mesmos em Deus, mais claramente do
que nos vemos no melhor dos espelhos".
Por um impulso
irresistível, prostraram-se de joelhos e começaram a repetir
intimamente:
"Ó
Santíssima Trindade, eu Vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no
Santíssimo Sacramento".
A Senhora esperou
que terminassem e então disse:
«Rezai o terço todos os dias, para alcançar a Paz para o Mundo e o fim da guerra.»
2ª Aparição
O
Imaculado Coração de Maria
No dia de Santo
António, apareceram os primeiros peregrinos na casa de Lúcia.
Tendo voltado da missa em Fátima, Lúcia foi com os primos e os
peregrinos até a Cova da Iria. Rezaram então um terço e, ao iniciarem
a ladainha Lúcia interrompeu, dizendo que não haveria tempo. Logo
exclamou:
- Jacinta! Já lá vem Nossa Senhora, que já deu o relâmpago!
Todos os três
correram para a azinheira pequena, com o povo atrás em círculo,
ajoelhado sobre as moitas e os tojos. Lúcia levantou as mãos como em
oração e perguntou:
-
Vossemecê
mandou-me vir aqui, faça o favor de dizer o que me quer.
«Quero
que venhais aqui no dia 13 do mês que vem, que rezeis o terço todos os
dias, e que aprendais a ler. Depois direi o que quero.»
Lúcia pediu-lhe a cura de um doente.
«Se
se converter, curar-se-á durante o ano.»
-
Queria
pedir-lhe para nos levar para o céu.
«Sim;
Eu levarei em breve a Jacinta e o Francisco para o Céu. Mas tu ficarás
cá mais algum tempo. Jesus quer servir-se de ti para Me fazer conhecer
e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração.»
-
Fico
cá sozinha?
«Não,
filha. E tu sofres muito com isso? Não desanimes. Eu nunca te deixarei.
O Meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te
conduzirá até Deus.»
Dizendo essas palavras, abriu as mãos como da
outra vez, comunicando-lhes um feixe de luz vivíssima que os envolveu
como num lago de ouro. Era como se estivessem submergidos
Desvanecida essa revelação, a Virgem voltou para
o Céu na direção do nascente.
A mãe de Lúcia, no dia seguinte, levou-a até Fátima para que desmentisse toda a história das aparições ao Prior. Este, porém, acolheu a menina com amabilidade e acreditou que realmente algo estivesse acontecendo. No entanto, para grande espanto de Lúcia, sugeriu que tudo poderia ser uma engano do demónio. Jacinta e Francisco tratavam de dissuadi-la de crer nessa possibilidade, mas Lúcia cada vez mais se decidia a não ir à Cova no mês seguinte.
3ª Aparição
A
visão do inferno 
Maria Rosa, mãe de
Lúcia, sentiu-se aliviada quando, no dia 13 de julho, percebeu
que sua caçula não pretendia levar o rebanho à Cova da Iria. Mas
quando chegou a hora, Lúcia sentiu-se subitamente impelida e correu à
casa dos tios, em busca dos primos, para irem ao encontro da Senhora.
Densa multidão já se aglomerava no local, pois os fatos do mês
anterior haviam corrido de boca
Era já o meio-dia
solar. Estavam ainda rezando o terço quando Lúcia, muito pálida,
olhou para o nascente e gritou:
- Fechem os chapéus! Fechem os chapéus que já aí vem Nossa Senhora!
A mesma nuvenzinha
acinzentada apareceu pairando sobre a azinheira, leve e transparente. O
sol amainou e começou uma aragem muito fresca, mal se percebendo que
era pleno verão. No silêncio profundo, apenas as pessoas mais próximas
dos videntes conseguiam ouvir como um zumbido vindo da azinheira, mas
sem distinguir as palavras da Senhora.
-
Vossemecê
que me quer?
«Quero
que venhais aqui no dia 13 do mês que vem, que continuem a rezar o terço
todos os dias, em honra de Nossa Senhora do Rosário, para obter a paz
do mundo e o fim da guerra, porque só Ela lhes poderá valer.»
-
Queria
pedir-lhe para nos dizer quem é, para fazer um milagre com que todos
acreditem que Vossemecê nos aparece.
«Continuem
a vir aqui todos os meses. Em outubro direi quem sou, o que quero, e
farei um milagre que todos hão de ver para acreditar.»
Lúcia então pensou em alguns pedidos que várias
pessoas lhe haviam feito. Um deles foi pela cura do filho de Maria
Carreira, que desde a segunda aparição acompanhava as crianças.
Nossa Senhora disse que não o curaria, mas lhe daria meios de vida se
rezasse o terço todos os dias. E acrescentou:
«Sacrificai-vos
pelos pecadores e dizei muitas vezes, em especial sempre que fizerdes
algum sacrifício: "Ó Jesus, é por vosso amor, pela conversão
dos pecadores, e em reparação pelos pecados cometidos contra o
Imaculado Coração de Maria".»
Conta Lúcia: «ao
dizer estas últimas palavras, a Senhora abriu de novo as mãos, como
nos dois meses passados. O reflexo pareceu penetrar na terra, e vimos
como um mar de fogo, os demônios e as almas, como se fossem brasas
transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no
incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com
nuvens de fumo, caindo para todos os lados como caem as fagulhas nos
grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de
dor e desespero que horrorizavam e faziam estremecer de pavor. Os demônios
distinguiam-se por formas horríveis e asquerozas de animais espantosos
e desconhecidos, mas transparentes, como negros carvões em brasa.»
As crianças ficaram tão atemorizadas que recearam
estar a ponto de morrer, como se não lhes tivesse sido dito que as três
iriam para o Céu. Ergueram os olhos em súplica desesperada para a
Senhora que os contemplava com melancólica ternura.
«Vistes
o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar,
Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração.
Se fizerem o que eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz.
A guerra vai acabar. Mas, se não deixarem de ofender a Deus, no reinado
de Pio XI começará outra pior.
Quando vierdes uma noite alumiada por uma
luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que
vai punir o mundo pelos seus crimes, por meio da guerra, da fome e de
perseguições à Igreja e ao Santo Padre.
Para o impedir, virei pedir a consagração
da Rússia ao Meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos
primeiros sábados. Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia se
converterá e terão paz; se não, espalhará os seus erros pelo mundo,
promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão
martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão
aniquiladas. Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo
Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido
ao mundo algum tempo de paz.
Em Portugal, conservar-se-á sempre o
dogma da Fé.»
Continua Lúcia, em relato do Terceiro Segredo,
como divulgado em 26 de junho do ano 2000: «vimos
ao lado de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de
fogo em a mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que parecia iam
incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão
direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O anjo apontando com a mão
direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência,
Penitência! E vimos n'uma luz imensa que é Deus: "algo
semelhante a como se vêm as pessoas n'um espelho quando lhe passam por
diante" um Bispo vestido de Branco "tivemos o pressentimento
de que era o Santo Padre". Vários outros Bispos, Sacerdotes,
religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual
estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fora de sobreiro com
casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade
meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dor
e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo
caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da
grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários
tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns atrás outros os Bispos
Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares,
cavalheiros e senhoras de varias classes e posições. Sob os dois braços
da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão,
n'eles recolhiam o sangue dos Mártires e com ele regavam as almas que
se aproximavam de Deus.»
Disse então Nossa Senhora:
«Isto
não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo.
Quando rezardes o terço, dizei depois de
cada mistério: "Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do
inferno, levai as almas todas para o céu, principalmente aquelas que
mais precisarem".»
Seguiu-se um momento de silêncio. Então Lúcia
perguntou:
-
Vossemecê
não me quer mais nada?
«Não,
hoje não te quero mais nada.»
Com um último olhar cheio de afeto, a Senhora
elevou-se em direção ao nascente até desaparecer. Logo começaram a
interpelar as crianças, que ainda estavam aturdidas:
- Ó Lúcia, que te disse Nossa Senhora que ficaste tão triste?
- É um segredo.
- E é coisa boa?
- Para uns é boa, para outros é má.
- E não o dizes?
- Não, senhor, não o posso dizer.
Por esse tempo já
parecia não haver ninguém em Portugal que não soubesse das notícias
de Fátima. Os jornais católicos faziam referência aos fatos com
grande prudência. A imprensa anticlerical acusava os padres de
inventarem tudo, para recuperar o prestígio da Igreja.
Enquanto isso, Lúcia
sofria em casa as consequências da destruição que o povo causava nas
plantações da Cova da Iria. No local já não se podia cultivar coisa
alguma.
- Tu, agora, quando quiseres comer, vais pedi-lo a essa Senhora! -
diziam à menina, que muitas vezes nem ousava pedir um pedaço de pão,
indo dormir com fome.
Mas Lúcia jamais se
revoltou contra a oposição que sofria da família, particularmente da
mãe. Tudo via como cumprimento do que o Anjo lhe havia dito, a respeito
de aceitar os sofrimentos que Deus lhes enviaria. Além disso, foi inúmeras
vezes levada à presença do pároco para interrogatórios, para que,
quebrada sua teimosia, admitisse que toda essa história não passava de
mentira. Mas o bom padre não encontrava contradição alguma nas
palavras da pequena, e abanava a cabeça sem saber o que fazer a
respeito de tudo aquilo.
Somente no campo, com
os priminhos, é que tinha um pouco de paz. Mesmo assim, suas conversas
agora eram melancólicas, marcadas pelas revelações espantosas do dia
13 de julho. Rezavam e faziam penitências pelos pobres pecadores.
Jacinta não se comprazia com a promessa de que iria para o Céu: queria
que todos também lá fossem. E dizia:
- Penso no inferno e nos pobres pecadores... O inferno! O inferno!...
Que pena eu tenho das almas que vão para o inferno. E as pessoas lá
vivas a arder como lenha no fogo!... Ó Lúcia, por que será que Nossa
Senhora não mostra o inferno aos pecadores? Se eles o vissem, já não
faziam mais pecados para não irem para lá. Hás de dizer àquela
Senhora que mostre o inferno a toda aquela gente. Verás como se
convertem.
De vez
- Ó Lúcia, ó Francisco, vocês estão a rezar comigo?... É preciso
rezar muito para livrar as almas do inferno... Vão para lá tantas,
tantas!...
E rezavam pelos
pecadores que não rezam. Pela conversão dos pecadores, deixavam muitas
vezes de beber água e não comiam. Por sua vez, Francisco parecia menos
abalado com as revelações do inferno e das futuras atribulações da
humanidade. Freqüentemente exclamava, arrebatado:
- Como é Deus!!! Não se pode dizer! Isto sim, que a gente nunca pode dizer! Mas que pena Ele estar tão triste! Se eu O pudesse consolar!...
4ª Aparição
Visões e o seqüestro
Em agosto, Jacinta
começou a ter visões proféticas. Certo dia, tendo terminado de rezar
com o irmão e a prima no Cabeço, levantou-se e disse a Lúcia:
- Não vês tanta estrada, tantos caminhos e campos cheios de gente a
chorar com fome e sem nada para comer? E o Santo Padre numa igreja,
diante do Imaculado Coração de Maria, a rezar? E tanta gente a rezar
com ele?
Nas visões de
Jacinta sempre havia coisas sobre o Papa (embora não soubesse qual
Papa), e ela ficava tão perturbada, que queria contar a todos, para que
assim rezassem constantemente por ele.
- Posso dizer que vi o Santo Padre e toda aquela gente?
- Não! -
respondia Lúcia.
Não vês que isso faz parte do segredo? E que por aí logo se
descobria?
Mais uma vez,
estando os três à beira do poço, Jacinta fitava o espaço e então
disse a Lúcia:
- Não viste o Santo Padre?
- Não!
- Não sei como foi! Eu vi o Santo Padre
numa casa muito grande, de joelhos, diante de uma mesa, com as mãos na
cara, a chorar. Fora da casa estava muita gente e uns atiravam-lhe
pedras, outros rogavam-lhe pragas e diziam-lhe muitas palavras feitas.
Coitadinho do Santo Padre! Temos que pedir muito por ele!
Ao mesmo tempo,
tanto a família como os curiosos atormentavam as crianças:
- Ainda por aqui, ainda não foste para o Céu?
- E a tal mulherzinha já veio outra vez
passear por cima das azinheiras?
- Achas que acredito nas tuas mentiras?
Também os
sacerdotes as afligiam, e muito. Porém, de vez em quando aparecia algum
que os ensinava, animando-os e confortando-os. Um deles disse a Lúcia:
- A menina deve amar muito a Nosso Senhor por tantas graças e benefícios
que lhe está concedendo.
Estas palavras,
ditas com tanta bondade, gravaram-se tão intimamente na sua alma, que a
pequena dizia repetidas vezes, ensinando também aos priminhos:
- Meu Deus, eu Vos amo em agradecimento pelas graças que me tendes
concedido.
Marcante para eles
foi o aparecimento de Padre Cruz, que conversou longamente com as
três crianças, ensinando-lhes muitas jaculatórias, tais como:
- Ó meu Jesus, eu Vos amo!
- Doce Coração de Maria, sede a minha
salvação!
Dizia Jacinta:
- Gosto tanto de dizer a Jesus que o amo!... Quando lhe digo muitas
vezes, parece que tenho um lume no peito, mas não queima. Gosto tanto
de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, que nunca me canso de Lhes dizer que
os amo!
Mas, enquanto isso,
o governo anticlerical via os três confidentes de Nossa Senhora como
perturbadores da ordem pública.
No dia 11 de agosto,
Lúcia foi com o tio e o pai para Ourém, onde foram inquiridos pelo
administrador. No dia seguinte, um domingo, já se avolumava o povo em
Aljustrel, à espera da aparição do mês. Ao entardecer, três homens
vindos de Ourém interrogaram acidamente as crianças, ameaçando-as de
morte caso insistissem em guardar silêncio sobre o segredo. Na manhã
do dia 13, o próprio administrador apareceu na casa de tio Marto,
dizendo desejar ir até o local do milagre. Colocou as crianças em seu
carro, para levá-las à Cova da Iria; disse que poderiam passar antes
em Fátima, para o Prior fazer-lhes algumas perguntas. Foi assim
realmente, porém, partindo da casa do Prior, a carruagem fez uma curva
na direção oposta: estavam indo para Ourém!
Enquanto isso, na
Cova da Iria os peregrinos que rezavam o terço ouviram um murmúrio e
um ruído como de trovão; viram um relampejar de luz e uma nuvenzinha
frágil vindo do leste, branca e transparente, que flutuou e pousou
levemente sobre a azinheira. Maravilhados e surpreendidos, muitos
observaram que o rosto das pessoas parecia brilhar com as cores do arco-íris
e as roupas ficaram manchadas de vermelho, amarelo, azul e alaranjado. A
folhagem das árvores e arbustos parecia coberta de flores brilhantes,
em vez de folhas, e até a terra seca estava coberta de cores alegres. A
Senhora viera, sem dúvida. Mas não encontrou as crianças. Pouco
depois, a nuvenzinha se elevou novamente e se dissipou no céu.
Em Ourém, o
administrador interrogou os três pastorinhos, mandando-os depois
encarcerar na mesma cela dos presos. Assustados com a situação,
desapontados por não terem podido ir à Cova, tristes com a expectativa
da Senhora não mais lhes aparecer, ofereciam todo esse sofrimento a
Deus, em espírito de reparação. Rezaram um terço, acompanhados pelos
prisioneiros, e chegaram a brincar um pouco com eles, até que foram
chamados novamente à presença do administrador. Ameaçados de serem
jogados num caldeirão de azeite quente, nem assim as crianças abriram
a boca para revelar o segredo da Senhora. Os três passaram a noite na
casa do administrador. No dia seguinte, depois de mais um interrogatório
frustrado, foram levados de volta a Fátima.
Antes de irem para casa, os pastorinhos foram ao local das aparições para rezar o terço diante da árvore. Causou pena ver o estado da azinheira, com mais galhos do que folhas. Perto dela estava uma mesa com dois castiçais e algumas flores, levadas para ali no dia 13 por Maria Carreira. Muitas pessoas haviam lançado sobre essa mesa algumas moedas, cuja aplicação Lúcia ficou de perguntar à Senhora em 13 de setembro.
Nos Valinhos
No domingo seguinte,
dia 19 de agosto à tarde, Lúcia, Francisco e o irmão João
foram levar as ovelhas para uma fazenda do tio de Lúcia: os Valinhos.
Eram mais ou menos quatro horas da tarde quando Lúcia começou a notar
que a temperatura refrescava, o sol se amainava, e então surgiu o relâmpago.
Também a irmã de Lúcia, Teresa, e seu marido, que estavam para entrar
em Fátima, perceberam nesse momento as mesmas coisas que se viram no
dia 13 na Cova da Iria. Ao sentir que Nossa Senhora vinha, e Jacinta não
estava no local, exclamou para o primo:
- Ó João, vai buscar a Jacinta depressa que vem lá Nossa Senhora!
Como o rapaz não
quisesse ir, na intenção de ficar e ver também a Senhora, Lúcia lhe
prometeu dois vinténs para que fosse a toda pressa. Quando deu o
segundo relâmpago, Jacinta chegava com João. Momentos depois, aparecia
a Senhora sobre uma azinheira.
-
Que
é que Vossemecê me quer? - perguntou Lúcia, como das
outras vezes.
«Quero
que continueis a ir à Cova da Iria, no dia 13, e que continueis a rezar
o terço todos os dias.»
Novamente, Lúcia
pediu que Ela fizesse um milagre para todos acreditarem.
«Sim.
No último mês, em outubro, farei um milagre para que todos creiam nas
minhas aparições. Se não vos tivessem levado à aldeia, o milagre
seria mais grandioso. Virá São José com o Menino Jesus para dar a paz
ao mundo. Virá também Nosso Senhor para abençoar o povo. Virá ainda
Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora das Dores.»
-
Que
é que Vossemecê quer que se faça do dinheiro e das outras ofertas que
o povo deixa na Cova da Iria?
«Façam-se
dois andores; um leva-o tu com a Jacinta e outras duas meninas vestidas
de branco; o outro, que o leve o Francisco com mais três meninos. O
dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário e o
que sobrar é para ajuda de uma capela que hão de mandar fazer.»
-
Queria
pedir-lhe a cura de alguns doentes.
«Sim;
curarei alguns durante o ano.»
Ela fez uma pausa e
continuou, depois, muito triste:
«Rezai,
rezai muito, e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas
para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas.»
Então, como das
outras vezes, foi se elevando até sumir em direção ao nascente. As
crianças ficaram cheias de júbilo, depois de tantas desilusões e
vexames sofridos. Quando saíram do êxtase e se sentiram capazes de se
mover, cortaram alguns galhos da árvore
- Ó tia, vimos outra vez Nossa Senhora!... Nos Valinhos!
- Ai, Jacinta! Sempre vocês me saíram
uns mentirosos! Nem que Nossa Senhora lhe vá aparecer agora em toda
parte por onde vocês andam!...
Mas a extraordinária
fragrância dos galhos da azinheira dos Valinhos foi, para as famílias
dos videntes, um sinal de que alguma coisa singular realmente estava
acontecendo.
O tempo todo as três
crianças dedicavam à oração e a imaginar que mortificações
poderiam praticar pela conversão dos pecadores. No mês de agosto, de
maior seca, chegaram a ficar nove dias sem beber água. Em lugar de
comer as frutas doces que os pais lhes davam, comiam ervas do campo e
pinhas verdes. Tendo encontrado uma corda áspera no caminho para
Aljustrel, os três a repartiram para usar na cintura como um silício,
dia e noite.
Eram claros os sinais de que essas penitências agradavam a Deus. Particularmente, Jacinta agora era mais paciente, carinhosa, e aberta aos sofrimentos. Teve muitas visões sobre coisas futuras. Certo dia, rezou três Ave-Marias por uma mulher muito doente, e todos os sintomas da doença desapareceram. Por outra mulher, que os injuriava chamando-as de impostoras e mentirosas, Jacinta pediu que os três fizessem muitas penitências para que se convertesse; e de fato, nunca mais a ouviram dizer uma palavra menos bondosa.
5ª Aparição
Vinte mil peregrinos na Cova da Iria
O número de devotos
de Nossa Senhora de Fátima ia aumentando dia a dia.
Na Cova da Iria, os
devotos se comportavam como se estivessem na igreja, ajoelhando-se
quando lhes era possível, e os homens descobriam a cabeça para rezar.
Com grande dificuldade, as crianças passaram pela multidão para chegar
ao pé da azinheira. No caminho, gente do povo e até senhoras e
cavalheiros caíam de joelhos diante deles, pedindo-lhes que
apresentassem à Senhora suas aflições.
- Pelo amor de Deus, peçam a Nossa Senhora que me cure o meu filho que
é aleijadinho!
- Que me cure o meu que é cego!
- O meu que é surdo!
- Que me traga meu marido, meu filho, que
anda na guerra.
- Que me converta um pecador!
- Que me dê saúde que estou
tuberculoso!...
Ali apareciam todas
as misérias da pobre humanidade. Alguns gritavam até do alto das árvores
e muros, para onde subiam a fim de ver os videntes. E as crianças
haviam apenas visto a Mãe do Salvador. Como não terá sido nos
caminhos de Israel, quando Nosso Senhor andava pelo mundo?
Chegados à
azinheira milagrosa, Lúcia começa o terço, e toda a gente a segue na
oração. Agora a Cova da Iria transformava-se num grande templo cuja abóbada
era o Céu.
Dá-se o relâmpago.
Um globo luminoso que todo o povo vê, move-se do nascente para o
poente, deslizando lento e majestoso. Acontece então uma chuva de pétalas
coloridas, que desaparecem antes de chegar ao chão; o sol escurece a
ponto de deixar ver as estrelas; uma aragem fresca suaviza os rostos
escaldados. Tudo causa assombro e alegria. De todos os lados se ouvem
brados de louvor à Virgem Santíssima, que mais uma vez vem manifestar
seu poder e misericórdia.
-
Que
é que Vossemecê me quer?
«Continuem
a rezar o terço a Nossa Senhora do Rosário, todos os dias, para alcançarem
o fim da guerra.»
E novamente
recomenda que não faltem no dia 13 de outubro, em que virá São José
com o Menino Jesus para dar a paz ao mundo, Nosso Senhor para abençoar
o povo, Nossa Senhora das Dores e Nossa Senhora do Carmo. Depois de um
curto silêncio, a Senhora acrescenta:
«Deus
está contente com os vossos sacrifícios, mas não quer que durmais com
a corda; trazei-a só durante o dia.»
Desse modo, foi
corrigido o excesso de mortificação ao qual as crianças se submetiam.
-
As
pessoas me têm pedido para pedir muitas coisas. Esta pequena é
surda-muda. Não a quer curar? - e Lúcia acrescenta os
muitos outros pedidos de que se lembrava.
«Alguns
curarei, outros não, porque Nosso Senhor não se fia neles.»
-
O
povo gostava de ter aqui uma Capela.
«Empreguem
metade do dinheiro, que até hoje têm recebido, nos andores, e sobre um
deles ponham Nossa Senhora do Rosário, a outra parte será destinada a
ajudar a construção duma Capela.»
- Há
muitos que dizem que eu sou uma intrujona, que merecia ser enforcada ou
queimada. Faça um milagre para que todos creiam!
«Sim,
em outubro farei um milagre para que todos acreditem.»
-
Umas
pessoas deram-me duas cartas para Vossemecê e um frasco de água de colônia.
«Isso
de nada serve para o Céu.»
E começou a elevar-se até desaparecer. Parte da multidão viu novamente o globo nevado.
O
Milagre do Sol
Em todo o país de
Portugal se falava nas Aparições de Fátima e sobretudo no milagre
esperado
Que
não se ofendam as almas piedosas nem se assustem os corações crentes
e puros (...) Este é apenas um artigo de jornal sobre um acontecimento
que não é novidade na história do catolicismo... Alguns o encaram
como uma mensagem do céu e da graça. Outros vêem nele a prova
evidente de que o espírito de superstição e de fanatismo lançou raízes
tão profundas que será difícil, se não de todo impossível, destruí-lo.
(...) Segundo o que afirmam as crianças, a Virgem aparece sobre uma
azinheira, rodeada de uma nuvem por todos os lados. É tão poderosa a
sugestão colectiva, ali causada pelo sobrenatural e mantida por uma força
sobre-humana, que os olhos se enchem de lágrimas, as faces se tornam pálidas
como cadáveres, homens e mulheres caem de joelhos, cantando hinos e
rezando juntos o terço."
Em Fátima e
Aljustrel, onde menos se dava fé às palavras dos pastorinhos videntes,
reinava um verdadeiro pavor: temia-se que, não acontecendo o tal
milagre prometido, o povo lhes queimasse as casas e os matasse. A mãe
de Lúcia acordou-a no dia 12, mal nascido o sol:
- Ó Lúcia, é melhor irmos à confissão. Dizem que havemos de morrer
amanhã na Cova da Iria... Se a Senhora não faz o Milagre, o povo
mata-nos. Portanto é melhor que nos confessemos, a fim de estarmos
preparadas para a morte...
Mas Lúcia respondia
com toda a calma:
- Se a mãe quer se confessar, eu vou também; mas não por este motivo.
Não tenho medo que nos matem. Estou certíssima que a Senhora há de
fazer amanhã tudo o que prometeu.
O dia 13 de outubro
amanheceu com uma chuva torrencial. Havia cerca de 70 mil pessoas na
Cova da Iria. Pelo caminho, como no mês anterior, muitos se aproximavam
dos pastorinhos pedindo graças e curas. A água da chuva escorria por
suas roupas, e as pessoas enlameadas até os joelhos cantavam hinos. Um
dos padres que passara a noite toda na chuva e na lama, de tempos em
tempos consultava nervosamente o relógio. Ao aproximar-se a hora da
aparição, todo o povo rezava o terço, até que Lúcia,
impulsivamente, disse que fechassem os guarda-chuvas. E, apesar da chuva
que ainda caía, um por um os presentes obedeceram. O padre olhou
novamente para o relógio depois de alguns instantes e disse:
- Já passou do meio-dia. Fora com tudo isto! É tudo uma ilusão!
Começou a empurrar
os três pequenos videntes com as mãos e Lúcia, quase a chorar,
recusou-se a sair do lugar.
- Quem quiser ir-se embora, que se vá, que eu não vou! Nossa Senhora
disse que vinha. Veio das outras vezes e agora também há de vir.
Já se ouviam
queixas e murmúrios de desapontamento entre os presentes, quando Lúcia
olhou para o nascente e disse a Jacinta:
- Ó Jacinta, ajoelha-te que já lá vem Nossa Senhora! Já vi o relâmpago.
- Vê bem, filha! Olha que não te enganes! -
disse Maria Rosa. Mas Lúcia nem ouviu a recomendação. As pessoas mais
próximas já notaram que suas feições se tornavam coradas e de uma
beleza transparente. Olhava agora arrebatada para a Senhora.
-
Que
é que Vossemecê me quer?
«Quero
dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra. Sou a Senhora do Rosário.
Que continuem a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os
militares voltarão em breve para suas casas.»
-
Tenho
muitas coisas para lhe pedir: se curava uns doentes, se convertia uns
pecadores...
«Uns,
sim; outros, não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos
seus pecados.»
E o rosto da Senhora
tomou um ar sério:
«Não
ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido.»
-
Não
me queres mais nada?
«Não
te quero mais nada.»
- E eu também não quero mais nada.
Despedindo-se, a
Senhora abriu as mãos, como das outras vezes, e o brilho que delas saía
subia até onde devia estar o sol. A multidão viu as nuvens se abrirem
e o sol aparecer entre elas, no azul do céu, como um disco luminoso.
Muitos ouviram Lúcia gritar:
- Olhem para o sol!
porém, ela estava em êxtase e não se recorda de
ter dito isso, pois estava totalmente absorta em outras visões que se
sucederam...
Conta Lúcia: "desaparecida Nossa
Senhora na imensidade do firmamento, vimos ao lado do sol São José com
o Menino e Nossa Senhora vestida de branco com um manto azul. São José
com o Menino pareciam abençoar o mundo, pois faziam com as mãos uns
gestos em forma de cruz."
E somente Lúcia
teve a visão seguinte: "Pouco
depois, desvanecida essa aparição, vi Nosso Senhor e Nossa Senhora que
me dava a ideia de ser Nossa Senhora das Dores. Nosso Senhor parecia
abençoar o mundo da mesma forma que São José. Desvaneceu-se esta
aparição e pareceu-me ver ainda Nossa Senhora em forma semelhante a
Nossa Senhora do Carmo".
Enquanto isso, a multidão presenciava o milagre prometido por Nossa
Senhora: o sol rompia as nuvens e, bem no zênite, na posição de
meio-dia, brilhava como um disco de prata. Era possível realmente olhar
para ele, sem que sua luz ofuscasse. Isso foi por um instante. Todos
ainda olhavam para o sol, assombrados, quando ele começou a "dançar",
segundo a descrição das pessoas: ele começou a girar sobre si mesmo,
como uma bola de fogo, e então parou. Logo voltou a girar, mas
velozmente. Ainda girando, suas bordas ficaram escarlates e começaram a
lançar chamas por todo o céu, e com isso sua luz se refletia em tudo e
em todos, com as diferentes cores do espectro solar. Ainda girando
rapidamente, e espargindo chamas coloridas, por três vezes o sol
pareceu desprender-se do céu e precipitar-se em zigue-zague sobre a
multidão.
Muitos julgavam ser o fim do mundo, e as pessoas se
ajoelhavam na lama pedindo perdão de seus pecados. Houve quem fizesse
confissão pública em altos brados, e alguns dos que haviam ido até a
Cova para fazer troça dos crédulos prostraram-se em terra entre soluços
e orações desajeitadas. O fenómeno durou por uns dez minutos, e
depois, elevando-se em zigue-zague, o sol voltou a sua posição normal
e brilhante, ofuscando como o sol comum.
As pessoas se entreolhavam e diziam: "Milagre!
Milagre! As crianças tinham razão! Nossa Senhora fez o milagre!
Bendito seja Deus! Bendita seja Nossa Senhora!" Muitos riam, outros
choravam de alegria, e houve quem notasse que suas roupas se haviam
secado subitamente.
Soube-se que o fenômeno foi visto até a quarenta
quilómetros de Fátima. Personalidades como o Prof. Almeida Garret e
membros da nobreza de Portugal registraram seu testemunho. A imprensa
anticlerical foi obrigada pelos factos a noticiar o fenómeno. Escreveu
o mesmo jornalista Avelino de Almeida, que esteve presente na Cova da
Iria:
Carta
a alguém que pede um testemunho insuspeito
(...)
Foste um crente na tua juventude e deixaste de sê-lo. Pessoas de família
arrastaram-te a Fátima, no vagalhão colossal daquele povo que ali se
juntou a 13 de outubro. O teu racionalismo sofreu um formidável embate
e queres estabelecer uma opinião segura socorrendo-te de depoimentos
insuspeitos como o meu, pois que estive lá apenas no desempenho de uma
missão bem difícil, tal a de relatar imparcialmente para um grande diário,
O Século, os fatos que diante de mim se desenrolaram e tudo
quanto de curioso e de elucidativo a eles se prendesse. Não ficará por
satisfazer o teu desejo, mas decerto que os nossos olhos e os nossos
ouvidos não viram nem ouviram coisas diversas, e que raros foram os que
ficaram insensíveis à grandeza de semelhante espetáculo, único entre
nós e de todo o ponto, digno de meditação e de estudo.
(...)
Nas precedentes reuniões de fiéis, não faltou quem tivesse suposto
ver singularidades astronómicas e atmosféricas que se tomaram como indício
da imediata intervenção divina. Houve quem falasse de súbitos
abaixamentos de temperatura, da cintilação de estrelas em pleno
meio-dia e de nuvens lindas e jamais vistas em torno do sol. Houve quem
repetisse e propalasse comovidamente que a Senhora recomendava penitência,
que pretendia a erecção de uma capela naquele local, que em 13 de
outubro manifestaria, por intermédio de uma prova sensível a todos, a
infinita bondade e a omnipotência de Deus...
(...)
Vi que o desalento não invadiu as almas, que a confiança se conservou
viva e ardente, a respeito das inesperadas contrariedades, que a
compostura da multidão que superabundavam os campónios foi perfeita e
que as crianças, no seu entender privilegiadas, tiveram a acolhê-las
as demonstrações do mais intenso carinho por parte daquele povo que
ajoelhou, se descobria e rezou a seu mandado ao aproximar-se a hora mística
e suspirada do contacto entre o céu e a terra...
E,
quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do
que essa rumurosa mas pacífica multidão animada pela mesma obsessiva
idéia e movida pelo mesmo poderoso anseio, que vi eu ainda de
verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, à hora
prenunciada, deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o
astro-rei -- disco de prata fosca -- em pleno zênite aparecer e começar
dançando num bailado violento e convulso, que grande número de pessoas
imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes cores
revestia sucessivamente a superfície solar...
Milagre,
como gritava o povo; fenómeno natural, como dizem sábios? Não curo
agora de sabê-lo, mas apenas de te afirmar o que vi... O resto
é com a Ciência e com a Igreja...
Era o fim glorioso das aparições de Fátima. Mas agora podia começar
o trabalho de investigação oficial da Igreja e tornava-se ainda mais
importante o testemunho dos pastorinhos.