APARIÇÕES DE N. S. DE LA SALETE
História da Aparição de Nossa Senhora da Salette
Um dia de Outono
Em
meados de Setembro de 1846, um camponês de Ablandins, Pedro Selme, está
com o pastor adoentado. Desce a Corbs, até a casa de seu amigo, o
carroceiro Giraud:-"Empresta-me teu Maximino por alguns
dias..."-"Maximino pastor? Ele é irresponsável demais para tanto !..."
Conversa vai, conversa vem..., a 14 de setembro o garoto Maximino vai a
Ablandins.
No dia 17 percebe a presença de Melânia na aldeia. No dia 18 vão
pastorear seus rebanhos nos terrenos de Comuna, no monte Planeau. À
tarde, Maximino procurava entabular uma conversa. Melânia não se mostra
interessada. Descobrem, no entanto, um ponto comum: os dois são de Corps.
Conversam então, e decidem voltar a pastorear juntos no dia seguinte e
no mesmo lugar.
Nas Pastagens da Montanha
No sábado, 19 de setembro de 1846, bem
cedo, as duas crianças sobem as ladeiras do monte Planeau, cada uma
tocando seu rebanho de quatro vacas, sendo que Maximino tinha também uma
cabra e o cachorrinho Lulu. O sol respandecia sobre as pastagens... Ao
meio dia, no fundo do vale, o sino da
Maximino e Melânia tornam a subir pelo vale até a "fonte dos homens".
Junto à fonte, tomam uma frugal refeição: pão e um pedaço de queijo.
Outros meninos pastores, que pastoreiam mais abaixo, juntam-se aos dois
e passam a conversar. Depois que eles partiram, Maximino e Melânia
atravessam o regato e descem alguns passos até os dois assentos de
pedras empilhadas, junto a poça seca de uma fonte sem água: e a "pequena
fonte". Melânia deposita a mochila no chão, e Maximino põe a
jaqueta e a merenda sobre a pedra.
Uma estranha claridade
Contrariamente a seu costume, as duas
crianças se estendem sobre a relva...e adormecem. O clima sob o sol de
final de verão, é agradável. Nem uma nuvem no céu. O murmúrio do regato
acrescenta-se à calma e ao silêncio da montanha. O tempo passa!...
Bruscamente Melânia acorda e sacode Maximino!-"Maximino,
Maximino, vem
Junto à pequena fonte, sobre um dos assentos de pedra...um globo de
fogo. "É como se o sol tivesse caído lá". No entanto, o
sol continua brilhando num céu sem nuvens. Maximino corre gritando:- "Onde
está? Onde está?" Melânia estende o dedo para o fundo do vale
onde haviam dormido. Maximo para perto dela, cheio de medo e lhe diz:- "Segura
o teu cajado, vai! Eu seguro o meu e lhe darei uma paulada se "aquilo"
nos fizer qualquer coisa". O clarão se mexe, se agita, gira
sobre si mesmo. As duas crianças faltam palavras para externar a
impressão de vida que irradia desse globo de fogo. Uma mulher ali
aparece, assentada, a cabeça entre as mãos, os cotovelos sobre os
joelhos, numa atitude de profunda beleza.
A Bela Senhora

A Bela Senhora põe-se de pé. Os dois não
se mexiam. Ela lhe diz, em francês:-
Vinde, meus filhos, não tenhais medo, aqui estou para vos contar
uma grande novidade!
Então, as crianças descem até a Bela Senhora.
Olham-na. Ela não para de chorar:- "Achavamos que era
uma mamãe cujos filhos a tivessem espancado e que se teria refugiado na
montanha para chorar". A Bela Senhora é alta e toda de luz.
Veste-se como as mulheres da região: vestido longo, um grande avental,
lenço cruzado e amarrado as costas, touca de componesa. Rosas coroam sua
cabeça, ladeiam o lenço e ornam seu calçado. Em sua fronte a luz brilha
como um diadema. Sobre os ombros carrega uma pesada corrente. Uma
corrente mais leve prende sobre o peito um crucifixo resplandecente, com
um martelo de um lado, e de outro uma torques.
O que Ela disse na montanha
A Bela Senhora fala aos dois pastores:- " Ela chorou durante todo o tempo em que nos falou". Junto ou separadamente, as duas crianças repetem as mesmas palavras, com ligeiras variantes que não afetam o sentido. Não importa quais sejam seus interlocutores: peregrinos ou simples curiosos, notáveis ou eclesiásticos, pesquisadores ou jornalistas. Quer sejam favoráveis, sem prevenção ou malévolos, eis o que lhes é transmitido:
Vinde, meus filhos, não tenhais medo, aqui estou para vos contar uma grande novidade!
"Nós
a ouvimos, não pensávamos em mais nada". Como Maximino e Melânia,
deixemos que ressoe em nós também o que ela falou no alto da montanha.
Com eles, ouçamos a Bela Senhora, contemplando o Crucifixo resplandente de glória sobre seu peito.
Se meu povo não quer submeter-se, sou forçada a deixar cair o braço de meu Filho. E tão forte e tão pesado que não o posso mais suster.
Há quanto tempo sofro por vós!
Dei-vos seis dias para trabalhar, reservei-me o sétimo, e não mo querem conceder! É isso que torna tão pesado o braço de meu Filho
E também os carroceiros não sabem jurar sem usar o nome de meu Filho. São essas as duas coisas que tornam tão pesado o braço de meu Filho.
Se a colheita se estraga, e só por vossa causa, Eu vo-lo mostrei no ano passado com as batatinhas: e vós nem fizestes caso! Ao contrário, quando encontráveis batatinhas estragadas, juráveis usando o nome de meu Filho. Elas continuarão asssim, e neste ano, para o Natal, não haverá mais.
A palavra "batatinhas" (em francês: 'pommes de terre'), deixa Melania intrigada. No dialeto da região, se diz "la truffa". E a palavra 'pommes' lembra-lhe o fruto da macieira. Ela se volta então para Maximino, para lhe pedir uma explicação. A Senhora porém, adianta-se dizendo:
Não compreendeis, meus filhos? Vou dize-lo de outro modo>>.
Retomando pois, as últimas frases no
dialeto de Corps, língua falada correntemente por Maximino e Melânia, a
Bela Senhora
Se tiverdes trigo, não se deve semea-lo. Todo o que semeardes será devorado pelos insetos, e o que produzir se transformará em pó ao ser malhado
Virá grande fome. Antes que a fome chegue, as crianças menores de sete anos serão acometidas de trevor e morrerão entre as mãos das pessoas que as carregarem, Os outros farão penitência pela fome. As nozes caruncharão, as uvas apodrecerão.
De repente, a Bela Senhora continua a
falar, mas somente Maximino a entende. Melânia percebe seus lábios se
moverem, mas nada entende. Alguns instantes depois, Melânia por sua vez,
pode ouvir, enquanto Maximino, que nada mais entende, faz girar o chapéu
na ponta do cajado ou, com a outra, brinca com pedrinhas no chão. - "Mas
nenhuma sequer tocou os pés da Bela Senhora!", excusar-se-ia alguns
dias mais tarde.- "Ela me disse alguma coisa ao me dizer: Tu não
dirás nem isso. Depois, não compreendia mais nada, e durante esse tempo,
eu brincava".
Assim a Bela Senhora falou em segredo a Maximino e depois a Melânia. E
novamente, os dois em conjunto ouvem as seguintes palavras:
Se se converterem, as pedras e rochedos se transformarão em montões de trigo, e as batatinhas serão semeadas nos roçados.
Fazeis bem vossa oração, meus filhos?
"Não muito Senhora", respondem as crianças.
Ah! Meus filhos, é preciso faze-la bem, à noite e de manhã, dizendo ao menos um Pai Nosso e uma Ave Maria quando não puderdes rezar mais. Quando puderdes rezar mais, dizei mais.

Durante o verão, só algumas mulheres mais idosas vão à Missa. Os outros trabalham no domingo, durante todo o verão. Durante o inverno, quanto não sabem o que fazer, vão a Missa zombar da religião. Durante a Quaresma vão ao açougue como cães.
Nunca viste trigo estragado, meus filhos?
"Não Senhora" , responderam eles.
Então Ela se dirige a Maximo:
Mas tu, meu filho, tu deves te-lo visto uma vez, perto do Coin, com teu pai. O dono da roça disse a teu pai que fosse ver seu trigo estragado. Ambos fostes até lá. Ele tomou duas ou três espigas entre as mãos, esfregou-as e tudo caiu em pó. Ao voltardes, quando estaveis a meia hora de Corps, teu pai te deu um pedaço de pão dizendo-te: "Toma, meu filho, come pão neste ano ainda, pois não sei quem dele comerá no ano próximo, se o trigo continuar assim".
Maximino responde:-
"É verdade, Senhora, agora lembro. Há pouco não lembrava mais".
E a Bela Senhora conclui, não mais em dialeto, e sim em francês:
Pois bem, meus filhos, transmitireis isso a todo o meu povo.
O julgamento
A 19 de setembro de 1851, Dom Felisberto de Bruillard, Bispo de Grenoble,
finalmente publica seu "Mandamento
Doutrinal".
Eis a passagem principal: "Nós julgamos que a
aparição da Santa Virgem a dois pastores, a 19 de setembro de 1846,
A repercussão desse mandamento é enorme. Numerosos Bispos determinaram
que seja lido nas paróquias das respectivas dioceses, A imprensa o
divulga para o bem ou para o mal. Traduzido para diferentes línguas, e
publicado sobretudo no Osservatore Romano de 4 de junho de 1852. Cartas
de felicitações se acumulam no Bispado de Grenoble.
A experiência e o senso pastoral de Dom Felisberto de Bruillard não se
detem aqui. A 1 de maio de 1852 publica novo mandamento, anunciando a
construção de um santuário sobre a montanha de La Salette, e a criação
de um grupo de missionários diocesanos a quem dá o nome de "Missionários
de Nossa Senhora da Salette". E acrescenta:- "A Santa Virgem
apareceu em La Salette para o mundo inteiro, quem disso pode duvidar?".
O futuro irá confirmar e ultrapassar estas expectativas, assegurado o
elo de ligação. Pode-se pois dizer que Maximino e Melânia
cumpriram sua missão.
O Santuário
Se encontra no coração da montanha, a 1800
metros de altitude, nos Alpes franceses. O santuário e a Hospedaria
foram confiados pela Diocese de Grenable a Associação dos Peregrinos de
La Salette. Os Missionários e as irmãs de Nossa Senhora da Salette
asseguram sua animação e funcionamento, com a ajuda de Capelões, Padres
diocesanos, Religiosos, Religiosas e Leigos. Estes ocupam um grande
espaço: associados a pastoral, assalariados para diferentes trabalhos, e
numerosos benevolos de todas as nacionalidades. Diversas são as
atividades oferecidas a escolha dos peregrinos. Leituras comentadas do
Evangelho, encontros sobre temas escolhidos, reuniões informais,
encontros com os capelões, exposições com abertura para a dimensão
missionária, para o serviço das vocações, ajuda a projetos de grupos,
acolhida de crianças, etc...
O dia-a-dia é tomado pela Eucaristia e os Ofícios da Manhã e da Tarde,
vigílias e procissões, terço e via-sacra... sem esquecer a oração
silenciosa sempre possível na montanha ou nos oratórios.
As Primeiras Testemunhas
Maximino Giraud
Maximino
Giraud nasceu em Corps, aos 26 de agosto de 1835. Sua mãe, Ana Maria
Templier, é originária da região. Seu pai Germano Giraud é proveniente
de uma região próxima. Maximino tinha dezessete meses quando sua mãe
morreu, deixando também uma menina de oito anos, Angélica. Pouco depois
o Sr. Giraud casa novamente. Maximino foi crescendo sem rumo. O pai,
armador de carroças, vive na oficina ou no botequim. Sua esposa não tem
atração nenhuma pelo garoto, vivo, descuidade, que não consegue ficar em
casa, mas vive de cá para lá, nas ruas de Corps, atrás das diligências e
carroças, ou andando pelas estradas com uma cabra e um cão. O garoto é
facilmente arteiro, com um olhar vivo sob uma negra cabeleira
desgrenhada, e uma língua solta... Durante a Aparição, enquanto a Bela
Senhora se dirige a Melânia, faz girar o chapéu no alto do cajado, ou
com outra ponta, brinca com as pedrinhas em torno dos pés da Bela
Senhora. - "Nenhuma a tocou!", responderá ele,
espontaneamente, a seus inquiridores. É cordial, desde que se sinta
amado. Malicioso quando se quer implicar com ele. Sua adolescência foi
difícil. Nos três anos seguintes à Aparição, perde seu meio-irmão João
Francisco, a madrasta Maria Court, e seu pai o carpinteiro Geraud. É
posto sob a tutela do irmão de sua mãe, o Tio Templier, homem rude e
interesseiro. Na escola, sua evolução nos estudos é modesta. A Irmã
Santa Tecla que o acompanha de perto, chama-o de "o eterno
movimento". Acrescentem-se a isso, as pressões exercidas pelos
peregrinos e curiosos. Nessas circunstâncias, alguns iluminados
legitimistas, partidários de um pretenso filho de Luís XVI, querem
manipulá-lo para fins políticos. Maximino procura ludibriá-los. Contra
os conselhos do Pároco de Corps e desrespeitando a interdição do Bispo
de Grenoble, eles conduzem o adolescente a Ars. Maximino não gosta da
companhia deles, mas aproveita a ocasião para conhecer este local. São
recebidos pelo imprevisível Pe. Raimundo que, logo de início, trata o
fato de La Salette como trapaça, e os videntes como mentirosos. Durante
a manhã de 25 de setembro de 1850, o Cura d'Ars encontra-se por duas
vezes com Maximono, uma na sacristia, e outra no confessionário, mas sem
confissão. Que poderá ter-lhe contato esse adolescente exasperado? O
resultado é que, durante anos, o santo Cura d'Ars duvidou e sofreu.
Depois do mandamento de 1851 ele remeterá seus interlocutores ao
julgamento emitido pelo Bispo responsável. Demorou alguns anos ele mesmo
aceitar o fato e reencontrar a paz. Quanto a Maximino, mesmo afirmando
que jamais se desmentiu, terá muitas dificuldades em justificar ser
comportamento. Basta enumerar os locais por onde passou para se avaliar
a que ponto o jovem Maximino viveu de cá para lá: do seminário menor de
Grenoble (Le Rondeau) à Grance Chartreuse, do tratamento médico em
Seyssin a Roma, de Dax a Aire-sur-Adour a Vésinet, depois do colégio de
Tonnerre a Petit Jouy em Josas perto de Versailles e a Paris.
Seminarista, empregado num asilo, estudante de medicina falhando ao
bacharelado, trabalha numa farmácia, engaja-se como guarda-pontíficio,
rescindindo o contrato após seis meses e voltando a Paris. O jornal
"La Vie Parisiense" atacou La Salette e os dois videntes. Maximino
apresenta queixa e obteve uma retificação. Em 1866 publica um opúsculo:
-"Minha profissão de fé a respeito da Aparição de Nossa Senhora
de La Salette". Nesse período, o Sr. e a Sra. Jourdain, um
casal devotado ao serviço de Maximino, assegura-lhe certa estabilidade e
paga suas dívidas a ponto de se arruinar. Maximino aceita então
associar-se a um comerciante de licores que faz uso de usa notoriedade
para aumentar a venda de seus produtos. O imprevidente Maximino não
encontra ali satisfação. Em 1870 foi mobilizado a servir no Forte Barrau,
em Grenoble. Por fim, volta a Corps onde o casal Jourdain vem a seu
encontro. Os três vivem pobremente, ajudados pelos padres do Santuário,
com a aprovação do Bispado. Em novembro de 1874, Maximino sobe ao local
de peregrinação de La Salette. Diante de um auditório particularmente
atento e comovido, apresenta a narrativa da Aparição como o fizera desde
o primeiro dia. Será a última vez. A 2 de fevereiro de 1875, vai
igualmente pela última vez, à Igreja Paroquial. Na tarde de 1o. de março,
Maximino se confessa, recebe a Eucaristia bebendo um pouco de água de La
Salette para engolir a hóstia. Cinco minitos mais tarde entrega sua alma
a Deus. Não completara quarenta anos ainda. Seus restos mortais repousam
no cemitério de Corps, mas seu coração se encontra na Basílica de La
Salette, perto do teclado do órgão. Era sua última vontade, para assim
marcar seu apego à Aparição: - "Creio firmemente, mesmo a preço
de meu sangue, na célebre aparição da Santíssima Virgem sobre a Montanha
de La Salette, a 19 de setembro de 1846. Aparição que defendi por
palavras, por escritos e por sofrimentos... Com este sentimento dou emu
coração a Nossa Senhora de La Salette".
A 19 de setembro de 1855, Dom Ginoulhiac, novo Bispo de Grenoble, assim resumia a situação:- "A missão dos pastores chegou ao fim, a da Igreja começa". Inumeros são hoje os homens e mulheres de todas as raças e países, que encontraram na mensagem da Salette o caminho da conversão, o aprofundamento da própria fé, o dinamismo para a vida cotidiana, as razões do próprio engajamento com e no Cristo a serviço dos outros.
Melânia Calvat
Melânia
nasceu em Corps, aos 7 de novembro de 1831, no seio de uma família
numerosa. O pai, Pedro Calvat, conhecido como serrador, na verdade
aceita qualquer tipo de trabalho. A mão, Julia Barnaud, lhe dará dez
filhos. Melânia é a quarta. A família é tão pobre que às vezes, as
crianças eram mandadas mendigar. Criança ainda, Melânia é "empregada"
para tomar conta de vacas junto a componeses da região. Desde a
primavera de 1846 até o fim do outono, ei-la na casa de João Batista Pra,
em Ablandins, um dos pequenos povoados da aldeia de La Salette. O
vizinho de Pra se chama Pedro Selme. É ele que contratou por uma semana
somente, o irrequieto Maximino para substituir um pastor adoentado.
Diante desse extrovertido, Melânia, tímida e taciturna, se mantém
reservada. No entanto, as duas crianças têm algo em comum..., sem assim
se pode falar! Nascidas em Corps, onde residem as respectivas famílias,
não se conhecem pórem, dadas as prolongadas ausências da pastora. Ambos
falam o dialeto local, e só conhecem algumas palavras do francês. Nem
escola, nem catecismo. Não sabem ler nem escrever. O pai de Melânia vive
à procura de serviço. A mãe anda sobrecarregada de trabalho por causa da
família numerosa. Não há lugar para o afeto, e se há, é muito pouco. No
dia da Aparição, o que caracteriza Melânia e Maximono é a pobreza:
pobres de bens, pobres de saber, pobers de afeição. O fato é que são
inteiramente dependentes. São como "cera virgem" que o evento marcará
definitivamente com serus sinais, respeitando porém suas personalidades.
Melânia, na verdade, é muito diferente de seu companheiro Maximino. Vive
na casa de estranhos e só convive com a própria família durante os
difíceis meses de inverno, quando a fome e o frio sobrevêm. Não é de
estranhar pois que seja tímida e introvertida. - "Suas respostas eram
simplesmente Sim ou Não", afirmava seu patrão, João Batista Pra. Depois
do fato, ela responderá com clareza e simplicidade às perguntas
relativas ao evento de La Salette. Permanece durante quatro anos junto
às Irmãs da Providência. Tem pouca memória e ainda menos aptidões que
Maximino, para os estudos. A partir de novembro de 1847, sua diretora já
temia que Melânia "não tirava proveito da posição que o evento lhe havia
dado". Tornando-se postulante e, a seguir, noviça nessa mesma
Congregação, objeto de atenção e condescendência da parte de numerosos
visitantes, ela se otém às próprias opiniões. Por isso, o novo Bispo de
Grenoble, reconhecendo, embora, sua piedade e devotamento, recusa-se a
admiti-la aos votos "para formá-la... na prática da humildade e da
simplicidade cristãs". Infelizmente, Melânia dá ouvidos a pessoas
"inquietas e doentias", imbuidas de profecias populares, de teorias
pseudo-apocalípticas e pseudo-místicas. Isso a marcará pelo resto da
vida. Para dar crédito a tais afirmações, ele as relê à luz do segredo
que recebeu da Bela Senhora. O mais simples exame do que afirma e
escreve, mostra já as diferenças irredutíveis aos sinais e palavras de
Maria em La Salette. Melânia, seus problemas e fantasias, tornaram-se o
centro de seu discurso. Através de suas profecias, acerta as contas com
aqueles que opõem alguma resistência a seus projetos. Assim manisfesta
sua recusa à sociedade ou meio ambiente em que encontra problemas.
Recria um passado imaginário onde são exorcisadas as frustações de que
foi vítima na infância. Já em 1854, Dom Ginoulhiac escrevia:- "As
prediçoes atribuídas a Melânia... não têm fundamento, não têm
importância em relação ao Fato de La Salette... são posteriores a esse
mesmo Fato e nenhuma ligação têm com ele". E observa: - "Deixou-se a
maior liberdade às duas crianças para se desmentirem, e elas não mudaram
seu falar a respeito da verdade do fato de La Salette". Nessa ótica, Dom
Ginoulhiac proclamará a 19 de setembro de 1855, sobre a Santa Montanha:
"A missão dos pastores findou, e da Igreja começa".
Infelizmente, Melânia prosseguirá em suas divagações proféticas,
orquestradas mais tarde pelo talento fulgurante de Leon Bloy ao criar
uma corrente "melanista" que pretende se ligar a La Salette, mas que não
tem outra base senão as incontroláveis afirmações de Melânia. Está muito
longe dos fundamentos históricos da Aparição. Quanto ao conteúdo, apesar
do verniz religioso, nada tem praticamente a ver com as verdades da fé
da Igreja, relembradas por Maria em La Salette.Deixa-se o campo da fé
para ir-se ao campo instável, constestável e estéril das crendices. Esse
tipo de literatura distancia da fé em vez de favorecê-la. Em 1854, um
sacerdote inglês leva Melânia à Inglaterra. No ano seguinte, ela entre
no Carmelo de Darlington, onde faz profissão temporária em 1856,
deixando-o porém em 1860. Faz outra tentativa junto às Irmãs da
Compaixão, de Marselha. Depois de uma estadia na casa delas em Cefalônia,
na Grécia, e de uma passagem pelo Carmelo de Marselha, retorna às Irmãs
da Compaixão por pouco tempos. Depois de alguns dias em Corps e em La
Salette, estabelece-se na Itália, em Castellamare di Stabia, perto de
Nápoles. Alik permanece durante dezessete anos, escrevendo seus
"segredos" e a regra para uma eventual fundação. O Vaticano solicita ao
Bispo da Diocese que a proíba de publicar este tipo de escritos, mas ela
procura obstinadamente outros apoios e o imprimatur, até mesmo junto ao
chefe do Sacro Palácio, Dom Lepidi. Isso não significa uma aprovação,
nem mesmo velada. Além disso, a autoridade a que Melânia se refere não é
competente. Depois de uma estadia no sul, em Cannes, reencontramos
Melânia em Chalon-sur-Saône onde, sempre em busca de uma fundação,
sustentada pelo Cônego de Brandt d'Amiens, suscita uma querela com Dom
Perraud, Bispo de Autum. A Santa Sé entra na questão e dá razão ao
Bispo. Em 1892, retorna à Itália, perto de Lecce, depois em Messina, na
Sicília, mediante convite do Cônego Anibal di Francia. Depois de alguns
meses no Piemonte, estabelece-se na casa do Pe. Combe, Pároco de Diou,
no Allier, um sacerdote apaixonado por profecias político-religiosos.
Ali concluí uma autobiografia, no mínimo romanceada, onde reinventa para
si mesma, uma infância extraordinária, mesclada de considerações
pseudo-místicas, reflexo de suas próprias fantasias e das químeras de
seus correspondentes. As mensagens que estão Melânia emite e que ligar a
La Salette, nada em verdade, têm a ver com seu testemunho primitivo a
respeito da Aparição. Aliás, quando se toca no fato de 19 de setembro de
1846, ela reencontra a simplicidade e a clareza de sua primeira
narrativa, em plena concordância com a de Maximino. E isso, de maneira
constante. Assim foi quando de sua passagem sobre a Santa Montanha, a 18
e 19 de setembro de 1902. Retorna ao sul da Itália, em Altamura, perto
de Bari. Alí morre aos 14 de dezembro de 1904. Repousa sob uma lápide de
mármore na qual um baixo relevo mostra a Virgem acolhendo a pastora de
La Salette, no céu. Uma coisa é certa: ao final de todas as suas
andanças, há um ponto sobre o qual Melânia jamais mudou: o testemunmho
que, com Maximino, ela deu na tarde de 19 de setembro de 1846, na
cozinha de João Batista Pra, em Ablandins, e durante toda a investigação
conduziada por Dom Felisberto de Brillard, retomada e confirmada pela de
Dom Ginoulhiac. Numa vida difícil, Melânia permaneceu pobre e piedosa,
fiel sempre a seu primeiro testemunho.